Ela escutou a amiga a beira da loucura como se não houvesse lá fora uma tarde de sol frio, morangos com chocolate e um namorado a lhe esperar. Ela foi paciente e polida, foi companheira e compreensiva, foi além do que se espera de uma menina, foi humilde e inteligente como uma grande mulher. Ela disfarçou bem sua desaprovação, prendeu a respiração, prometeu recompensar com rock os ouvidos cansados. Passou um dia estranho, tomou um susto desnecessário, aconselhou como quem viveu o suficiente, caminhou e caminhou, como quem tem pernas de aço. Não se preocupou em ser perfeita ou em dar respostar prontas, mas usou as metáforas certas, fez silêncio nos momentos certos. Foi impecável em todos os encontros, em todos os suspiros e em todas as palavras, sem contradizer nem por um segundo sua própria opinião e sua própria história. Soube ser educada e segura nos momentos em que a amiga gritava e suportou as próprias lágrimas quando a conversa doía, pois sabia que a menina não suportaria. Mas não mentiu, mostrou sua fragilidade e seu desespero, com elegância de primeira bailarina. Contou também os seus problemas porque ninguém é de ferro e fez apenas as piadas que servissem a um pouco de descontração necessária ao momento, sem se deixar levar pela galhofa, sem ser indelicada e sem enfadar a si mesma. Foi gentil com as críticas e não fez julgamentos onde sabia que eles cabiam, pois entendeu como nunca antes a seriedade do problema. Ela foi bálsamo, foi mel, foi bala de anis. Ela foi honesta sem ser desafiadora e não quis se mostrar maior ou mais confiante... nem mais experiente. Ela foi perfeita e disse adeus como quem ama. Em seu próprio quarto afastou as roupas da cabeceira onde se encostou, tirou os sapatos, suspirou e chorou, desabando de verdade e se despindo de toda aquela fortaleza que antes demonstrara. E ela gemeu, como quem carrega o mundo com as mãos. E ela sofreu por uns instantes para estar preparada para os seguintes. Enxugou as lágrimas com as costas das mãos, se maquiou e saiu, para uma segunda (e semelhante) jornada. A heroína precisava entrar em ação novamente e salvar o dia de outra pessoa... foi, engolindo o próprio orgulho e a própria solidão. No dia seguinte deixou ainda um recado a sua amiga: “obrigada pela tarde maravilhosa...”, como se ajudar aos outros fosse ajudar a si mesma. E era.
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